O artista Mário Camargo inaugura nesta quinta-feira (21), às 16h, a exposição “Solidão dos números primos”, no Centro Cultural Correios, no Centro do Rio de Janeiro. A mostra, que vai ocupar o terceiro andar do edifício histórico, apresentará cerca de 30 obras que, em sua maioria, foram pintadas em linho com tinta acrílica diluída. Ainda que nasçam do mesmo processo, cada peça exprime sua singularidade, assim como números primos, divisíveis somente por um e por eles mesmos. Neste processo, o acaso, sempre presente, revela memórias inconscientes que tomam forma no ato de pintar.

O linho, muito leve e poroso, permite que o pigmento liquefeito transpasse de uma tela para outra, colocada por baixo. Tal processo gera trabalhos suaves e com menor quantidade de tinta, fazendo surgir obras com diversas possibilidades de resultado final: o original, com uma pintura mais forte; o verso do original; a primeira pintura de transferência; e a última que é o verso desta transferência – a mais suave e instigante. Em “A solidão dos números primos”, as telas apresentam o singular, não existe duplicidade, pois nada se repete no acaso.

Mário, em grande parte das escolhas, prefere mostrar esta feitura mais suave na exposição. E também aposta em outra possibilidade, a de colocar a pintura exposta apresentando os seus dois lados, um resultado que estabelece o conceito que o artista chama de ‘falso sudário’. Outra investigação importante é o que Camargo intitula ‘As peles das paredes’ pinturas de grandes formatos em que foram abandonados os chassis, o formato retangular, e as obras são colocadas nas paredes presas por agulhas.

Outro ponto a ser destacado nos trabalhos do artista é a constante utilização de tons de cinza, tons metálicos e a não utilização de tonalidades prontas. Na produção do artista, a cor é a camada sensível que, somada ao suporte, influi para conseguir sua poética da expressão. A busca de cores da contemporaneidade, por meio de misturas e da criação de cores personalizadas, são sua pesquisa constante, e o público vai poder perceber a manipulação de formas e movimentos, somados à variação de tons fluorescentes, que geram um transbordamento de sensações.

O que leva Camargo a criar o conceito abordado no seu conjunto criativo não é bem sobre forma, nem mesmo sobre a solidão dos números primos ou aproximar aquilo que nunca esteve separado. Mário Camargo se dá conta de que a solidão instaurada pelo contemporâneo, ao mesmo tempo em que procura abrandá-la, é a própria matéria utilizada em seus trabalhos para evocar este sentimento… “Sou viajante contumaz e nunca me contento com a contemplação do que vejo apenas, sempre busco na pesquisa novas soluções. Ser artista é um estado solitário cujo sentido se sobre-compõe em múltiplas camadas numa polifonia em que a regra não corrige a emoção, mas trava, ambas, algo como um diálogo corporal que se transforma em forma de embate criativo em múltiplos suportes, tais como pintura, desenho, objetos e, mais recentemente, o uso da costura como forma ativa da composição”, explica o artista.

A arte tornou-se independente de sua ligação com a representação, pois a cópia do real foi absorvida pela fotografia e tantos meios de reprodutibilidade. O papel do artista é criar sensações que atinjam o espectador, de forma pessoal. Singulares como números primos.

“Solidão dos números primos” poderá ser visitada até 3 de setembro, de terça-feira a sábado, das 10h às 19h (exceto feriados). O Centro Cultural Correios fica na Rua Visconde de Itaboraí 20, no Centro.