A Z42 Arte apresenta as exposições “Nascer de Terras”, da artista brasiliense radicada no Rio de Janeiro Amanda Coimbra, e “Esqueça de mim”, do artista carioca Marcelo Albagli. Com curadoria de Fernanda Lopes, as mostras ocupam todo o espaço expositivo do casarão no Cosme Velho com obras inéditas, que partem de fotografias de momentos históricos e de personalidades importantes da história para criar, por meio do desenho, poéticas distintas.

“Independentes entre si, as exposições de Amanda e Marcelo revelam a pesquisa recente e inédita de dois jovens artistas que vivem e trabalham no Rio de Janeiro, e, vistas em conjunto, permitem a reflexão sobre questões atuais como o estatuto da imagem, a prática do desenho na arte contemporânea e a construção/invenção da memória”, analisa a curadora Fernanda Lopes.

Amanda Coimbra, “Terra e Marte”

Amanda Coimbra parte da icônica fotografia “Earthrise” (1968), do astronauta William Anders, que mostra o planeta Terra visto da Lua, para criar as cerca de 20 obras da exposição “Nascer de Terras”. Considerada como uma das cem fotografias que mudaram o mundo, a imagem serviu de base para a artista começar a fotografar o céu noturno de forma analógica. Com os negativos em mãos, ela começou a arranhá-los, com agulhas, pontas de compasso e outros objetos pontiagudos, fazendo desenhos, criando novos planetas, desenhando estrelas, luas e repensando nosso lugar no mundo.

“Na superfície nítida e perfeita do negativo, crio marcas permanentes, quase como se fosse uma tatuagem, transformando-a em uma imagem meio ambígua, híbrida, pois ainda há a informação original daquela imagem fotográfica, mas com um desenho por cima, que se torna parte daquilo”, explica Amanda Coimbra.

Com isso, a artista mescla a realidade da fotografia com seus desenhos, criando imagens híbridas de ficção e realidade, misturando dois suportes distintos – fotografia e desenho – em uma mesma obra. “Ao borrar a fronteira entre ficção e realidade, ciência e imaginação, ‘Nascer de Terras’ reafirma que não existem imagens inocentes. É preciso estar atento e em posição de duvidar. É preciso olhar, olhar de novo, e olhar mais uma vez. O que estamos realmente vendo?”, ressalta a curadora Fernanda Lopes.

Amanda Coimbra

Enquanto Amanda fazia os desenhos, o robô da Nasa “Perseverança” chegava a Marte, e a artista incluiu o planeta vermelho em algumas obras. “A missão tinha como principal objetivo procurar sinais de vida no planeta e, como desdobramento, estudar a possibilidade dele ser habitado por seres humanos. Se em 1969, a fotografia da Terra nos fez repensar nossa relação com o planeta que habitamos e com a construção da imagem, hoje, acompanhar a exploração de Marte é ver nascer mais uma vez outra possibilidade de Terra. E outra possibilidade de imagem”, afirma a curadora.

Memória afetiva, nacional e histórica

Partindo de fotografias de personalidades históricas, Marcelo Albagli apresenta a exposição “Esqueça de mim”, com cerca de 25 desenhos em grafite sobre papel do século 19, que tratam de memória – afetiva, nacional e histórica. As folhas antigas trazem marcas do tempo, como mofo, manchas e amarelados, que interessam ao artista e se integram às obras.

A série de trabalhos que dá nome à exposição retrata o rosto de cinco presidentes da ditadura militar: Artur da Costa e Silva, Emílio Médici, Ernesto Geisel, Humberto Castello Branco e João Figueiredo. Com cerca de 1m x 1m, os desenhos são feitos sobre folhas de papel de livros antigos e, para chegar no tamanho que deseja, o artista junta essas folhas. “Há a materialidade do suporte, textura, volume, peso, gravidade, cheiro. Não é só o desenho como imagem, é o desenho como matéria”, afirma Marcelo Albagli.

Também fazem parte da exposição 15 trabalhos da série “Brasília 19:00”, que retratam signatários do AI-5, como Jarbas Passarinho e Delfim Netto. O nome da série faz alusão a Voz do Brasil e ao rádio, e sala que ocupa está ambientada com spots originais da Rádio Relógio, com a voz do locutor Tavares Borba. Nesta mesma sala também estão trabalhos que retratam outros políticos brasileiros, mas sobre quem o artista faz intervenções, como manchas e borrões, chegando a derreter o grafite em algumas, quase apagando o desenho, criando uma espécie de fantasma da figura.

Marcelo Albagli

“A memória se constitui como um corpo em construção, ao mesmo tempo individual e coletivo, físico e desmaterializado, a partir de inúmeras camadas de tempo, história, realidade e ficção. As lembranças do artista são como gatilhos que acionam nossas próprias lembranças. Somos colocados quase que diante de um espelho, olhando frente a frente cada um desses rostos”, afirma a curadora.

“Tem um caráter político, mas, acima de tudo, é um processo de construção da minha memória, da minha infância, lembrar da atmosfera, dos cheiros, dos tons, das roupas”, revela o artista. Em comum, os trabalhos trazem sempre apenas o rosto dos personagens, centralizado na folha de papel, tanto nos desenhos menores quanto nos maiores, compostos por diversas folhas, em uma alusão às fotos oficiais. Como referência para fazer estes desenhos fidedignos, o artista fez um longo trabalho de pesquisa em arquivos jornalísticos.

Como parte da exposição, no próximo dia 26 será realizada uma conversa entre a artista Amanda Coimbra e a engenheira química Teresinha Rodrigues, pesquisadora colaboradora do Observatório Nacional. A conversaé aberta ao público e gratuita. No dia 3 de dezembro, os artistas e a curadora Fernanda Lopes farão uma visita guiada pela exposição. No dia 10 de dezembro, Marcelo Albagli conversará com a jornalista e professora de jornalismo na PUC-Rio, Rose Esquenazi. A conversa também será gratuita e aberta ao público.

As exposições de Marcelo Albagli e Amanda Coimbra podem ser visitadas até 17 de dezembro. A Z42 Arte fica na rua Filinto de Almeida 42, Cosme Velho – Rio de Janeiro. Entrada franca.

Marcelo Albagli, “Jarbas Passarinho”