O Atelier Sanitário retoma seu processo residências artísticas. Esta será a terceira etapa desse projeto promovido pelo Governo do Estado e a Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do Rio de Janeiro, que é contemplado pelo edital Retomada Cultural RJ2 e visa estimular o desenvolvimento da produção artística e teórica, contribuindo para a cena artística carioca, especialmente na Gamboa.

Na segunda e mais recente etapa do programa, os artistas Sara Mosli e André Vargas e a pesquisadora Gisella V. Mello deram início à residência propriamente dita, com uma intensa troca de experiências culturais no Atelier Sanitário, que é um espaço autônomo de formação, trabalho e convivência artística, localizado na Gamboa, idealizado e gerido pelos artistas Daniel Murgel e Leandro Barboza.

Como parte do Edital Retomada Cultural RJ2, as propostas (de produção artística ou pesquisa teórica) têm como mote ou ponto de diálogo discussões e reflexões sobre o Bicentenário da Independência do Brasil. Cada participante recebeu uma bolsa para desenvolver seu projeto e terá o compromisso de realizar uma oficina ou palestra gratuita, aberta ao público, com mediação de um ou mais membros do comitê.

Nesta sexta-feira (6), às 17h, será inaugurada a exposição coletiva Margens Plácidas, no Atelier Sanitário, marcando a terceira e última etapa, em que serão apresentados os trabalhos produzidos pelos residentes, além de obras dos dois artistas do atelier, com curadoria de Fernanda Lopes.

Na mostra, o visitante poderá conhecer quatro obras que variam entre acrílicas sobre tecido, lambe-lambe, tinta de carimbo sobre algodão e um vídeo do artista visual, poeta, compositor e educador André Vargas, graduado em Filosofia pela UFRJ, que trabalha na retomada de sua ancestralidade como forma de entender as bases das culturas linguísticas, religiosas, históricas e estéticas das brasilidades em que se insere.

“Meu projeto nessa residência é postular outra forma de contar a história da liberdade no Brasil, com protagonismo do povo negro na sua construção, investigando marcos no território da Gamboa e adjacências”, defende Vargas. Em fevereiro, o artista fará uma apresentação do vídeo Rio de Lazareto seguido de debate.

Já a mineira nascida em Ouro Preto Sara Mosli, graduada em artes visuais pela Escola de Belas Artes da UFMG, mestra em Filosofia pela UFOP e doutoranda em Estudos Contemporâneos das Artes pela UFF, apresentará nove obras inspiradas nos panfletos políticos organizados no dossiê “Guerra das Penas: Panfletos Políticos da Independência (1830-1823)”, em razão dos 200 anos da declaração da Independência do Brasil.

Leandro Barboza Foto Marcos Vinicios de Souza @quemcala_naodorme

Sara trabalha com diferentes técnicas e materiais, explorando questões relacionadas à identidade e à narrativa histórica, limites da ficção e da realidade, memória e discurso histórico como criadores da subjetividade, entre outros. Ela vive e trabalha no Rio de Janeiro.

“Minha proposta para a residência artística do Ateliê Sanitário consiste em selecionar alguns desses panfletos digitalizados, disponíveis na Biblioteca Nacional, sob domínio público, e ‘editar’ poeticamente seus dizeres de forma que se tornem uma pequena reflexão contemporânea das demandas sociais que nos acometem hoje, 200 anos depois da invenção da ideia de Brasil, vivendo em um contexto convulsivo em que o patriotismo tem excedido a realidade democrática conquistada a duras penas na nossa história (e ainda frágil)”, pondera a artista residente.

No sábado 21 de janeiro, Sara apresentará a Oficina Fanzine.

Já a pesquisadora Gisella V. Mello, arquiteta e urbanista, turismóloga, bibliotecária e documentalista, apresentará cinco obras – quatro impressões de fotos em tecido com bordado em linha dourada, entre estas o Cemitério Inglês na Gamboa, a Vista da Praia da Gamboa, além de um vídeo – com registros do bairro atualmente fazendo um paralelo com as pinturas do passado pertencentes à Coleção Geyer/Museu Imperial de Petrópolis.

Fernanda Lopes, André Vargas, Leandro Barboza, Daniel Murgel, Sara Mosli e Gisella V Mello. Foto Marcos Vinicios de [email protected]_naodorme

“Pretendo com minha pesquisa bibliográfica e documental identificar os locais que aparecem nas pinturas feitas pouco depois da Independência do Brasil que se encontram na Coleção Geyer, e mostrar como estão atualmente. O bairro da Gamboa figura neste repertório pictórico da coleção. Minha intenção, ao executar este trabalho, é demonstrar para a sociedade atual como foi a sociedade passada. É por meio do seu patrimônio cultural que uma sociedade se evidencia”, ressalta a pesquisadora.

No sábado 14 de janeiro, às 17h, a pesquisadora receberá o público no Atelier Sanitário para uma conversa sobre Gamboa pela lente da Coleção Geyer, um contraponto com os dias atuais, em um desdobramento de seu tema de mestrado de Estudos Contemporâneos das Artes na UFF.

Margens Plácidas exibirá ainda obras dos artistas do Atelier Sanitário Daniel Murgel e Leandro Barboza. Daniel traz uma obra inédita a partir da pesquisa dos tipos de telhas coloniais – portuguesa, francesa, americana, romana – disponíveis no mercado de material de construção ao redor do Morro da Providência.

“O telhado simboliza abrigo e proteção, que entra em contradição com a invasão das terras brasileiras, principalmente pelos portugueses e franceses. Pretendo nessa caminhada pesquisar os tipos de telhas disponíveis da região da Pequena África para fazer um inventário dos telhados e projetar um monumento”, explica o artista.

Andre Vargas Foto Marcos Vinicios de Souza @quemcala_naodorme

O restaurador e artista residente Leandro também criou uma obra inédita para a mostra. “Para a exposição, apresentarei um Pilar, com todas as camadas construtivas expostas, dando continuidade à observação poética que faço do canteiro de obras, das técnicas empregadas na construção civil e da valorização do trabalho braçal, traçando um paralelo entre as estruturas que sustentam uma construção e a construção de uma república” revela Leandro.

Todos os eventos serão gratuitos, transmitidos pelas redes sociais do Atelier Sanitário e terão a presença da comunidade local e artística. “Um dos objetivos fundamentais deste projeto é colaborar com a formação e desenvolvimento artístico e intelectual dos residentes, incentivando a crescente e necessária produção cultural contemporânea, não só da cidade, mas também do bairro da Gamboa e da região da Pequena África, reafirmando a importância dos projetos culturais da região”, celebram Daniel e Leandro.

O Atelier Sanitário fica na rua Pedro Ernesto 56, na Gamboa.

Gisella V. Mello Foto Marcos Vinicios de Souza @quemcala_naodorme