Selecionado para a 44ª Mostra Internacional de Cinema, “A Machine to live in” traz um retrato peculiar de Brasília. O misticismo e arquitetura da capital do Brasil são o tema deste documentário que usa recursos de ficção-científica para contar a história da cidade e de seus moradores.

Quatro amigos que se conheceram em Chicago e um sonho de retratar uma cidade mítica e mística, Brasília: assim começou o projeto de “A Machine to live in”, um trabalho coletivo, filmado ao longo de 8 anos, definido como um mergulho na história e no que há de mais mítico em Brasília, onde convivem o poder e o misticismo. A direção é de Yoni Goldstein e Meredith Zielke, enquanto Sebastian Alvarez assina a produção e o roteiro (em parceria com Goldstein), e Andrew Benz dirigiu a fotografia, filmou a maior parte do filme, operou drones e foi um dos produtores executivos.

Em “A Machine to live in” estão em cena lugares conhecidos de turistas e cidadãos de Brasília, como o Congresso Nacional e o Vale do Amanhecer, mas por um prisma inusitado e inesperado e lugares como a cúpula do Senado, onde depois de muita negociação, por exemplo, a equipe pode filmar e encontraram manuscritos nas lajes do prédio do Congresso deixados por “candangos” que trabalharam na construção da cidade.

Alvarez, produtor do longa, era o único deles que falava português, graças às suas muitas viagens ao Brasil e estudos na Universidade Federal de Santa Maria, no Rio Grande do Sul. “Durante esses anos fiz amizades com estudantes brasileiros de todo o país, e conheci algumas das idiossincrasias de diversas regiões desse grande território. Como parte desse processo, conheci um pouco mais profundamente as lutas que os brasileiros têm enfrentado ao se empenharem para fortalecer sua democracia.”

O projeto começou em 2010, quando Goldstein leu pela primeira vez sobre Brasília e suas cidades satélites, enquanto ele trabalhava com Zielke e Benz na Cidade do México. Suas leituras na época foram influenciadas por dois autores: James Holsten, escrevendo sobre a antropologia do modernismo no Brasil contemporâneo, e Ernani Pimentel, autor de “Brasília Secreta”, que implementou a Cabala, a numerologia e a geometria sagrada para traduzir o desenho urbano de Brasília em uma metalinguagem do que ele diz serem seres interdimensionais.

Ao longo dos 8 anos de filmagens, “A Machine to live in” acompanhou três presidências diferentes, o que, para Alvarez, fez o quarteto “passar por muita tensão e ansiedade, mas também muita esperança, ilusão e idealismo. Tudo isso se infiltrou em nosso processo e observamos muita propaganda, fervor fanático, falcatruas e sensacionalismo, o que nos levou a pensar em reflexão e poesia, em vez de persuasão e prosa.”

A escolha por uma linguagem da ficção-científica serve para que os espectadores reflitam e se sintam desafiados. “Como pretendíamos exibir o filme nos cinemas, em uma grande tela, queríamos que o público se sentisse envolvidos pela monumentalidade da cidade, pela complexidade que o cerca, e queríamos que ele refletisse sobre estar preso no sonho de outra pessoa.”

Brasília sempre representou um sonho, para além daquele de Juscelino Kubitschek e da utopia de Oscar Niemeyer em sua cidade sem esquinas. No filme isso se apresenta na investigação entre a arquitetura e os moradores e moradoras atuais e do passado. O longa imagina como poderia ter sido, por exemplo, uma entrevista entre Clarice Lispector e Niemeyer, dirigida por Vladimir Carvalho. Mas a cidade não precisa exclusivamente de coisas imaginárias para se mostrar tão peculiar. Dos fantasmas do Palácio da Alvorada, de que Temer tinha medo, aos rituais místicos dos seguidores e seguidoras de Tia Neiva, tudo é fonte de curiosidade e beleza estética para o longa, que teve como inspiração filmes como “Sob a pele”, de Jonathan Glazer, “Nostalgia da Luz”, de Patrício Guzman, “Lições da Escuridão”, de Werner Herzog, “Vacancy”, de Matthias Müller, “Um homem com uma câmera”, de Dziga Vertov, e “Alphaville”, de Jean-Luc Godard. Da literatura e filosofia, a influência vem de escritos de Clarice Lispector, Alain Badiou, Gilles Deleuze e Byung-Chul Han.

Para Alvarez, que foi à Brasília pela primeira vez ainda bebê, o filme trouxe uma nova visão sobre a capital do país. “Ao ver Brasília como um adulto, mergulhado em estudos de estética e performance, pude ver a atuação de poder e autoridade em diferentes níveis da sociedade. Como cidade, o poder e o status de ícone de Brasília foram solidificados por meio de sua mitologia cuidadosamente elaborada como uma cidade utópica e da promessa que representou para os brasileiros na época de sua fundação. Todos esses ideais pareciam corrompidos e corroídos, como muitos dos edifícios de Niemeyer que precisam de manutenção constante. De certa forma, Brasília é um monumento em ruínas a um sonho obsessivamente racional de poder estatal.”.

Para a realização do longa foram usadas duas abordagens de produção documental: um modo observacional e uma metodologia participativa. O primeiro é uma perspectiva concreta da cinematografia terrestre e aérea. Utilizando diversos equipamentos como, drones, helicópteros e balões de ar quente, a perspectiva da câmera pode girar mecanicamente, e flutuar entre a arquitetura como se fosse uma nave alienígena, ou o olho da mente do arquiteto. Além das ferramentas cinematográficas tradicionais, o filme utilizou a tecnologia LIDAR para criar scans 3D da cidade (incluindo prédios, pessoas, carros e objetos).

A segunda faceta é expressa por meio de estratégias performativas para especular sobre história e cosmologia. Refletindo a influência da época, esse documentário usa uma linguagem retro-futurística do cinema ficção-científica para contar sua história. Fragmentos de textos literários e históricos abrem caminho para entrevistas, quadros fictícios com esculturas arquitetônicas temporárias se situam em cenas “reais” e encontros históricos ou situações inusitadas, que são criadas com liberdade imaginativa, como a conversa entre Clarice e Niemeyer, ou ainda uma versão sarcástica do Hino de Brasília, composta pelo poeta local Nicolas Behr, e cantada por um coro de crianças.

Alvarez destaca, ainda, que a pesquisa para o filme levou o quarteto “a informações que a maioria dos brasileiros (como em muitos outros países) não conhece, pois são distraídos pela rotina, trabalho alienado, gerenciamento de tempo, e também a ansiedade emocional que tinham em uma cidade e um país em crise, como nos Estados Unidos. Era mais fácil para nós nos colocarmos como extraterrestres e termos um olhar antropológico, não sobre as pessoas, mas sobre o modernismo e a modernidade. De alguma forma, refletimos mais sobre os sistemas de poder e ideologias que nos afetam nos Estados Unidos por estarmos em Brasília. Claro, esses são sistemas que agora operam em todo o mundo.”.

Conforme disse o diretor Goldstein, em entrevista a Jorge Mourinha, da revista portuguesa Público: “Não estávamos interessados em fazer um filme sobre um espaço utópico fracassado. Qualquer utopia pode falhar. A ficção científica sempre fala de um futuro que assombra nosso presente, e essa ideia de assombrá-lo está presente em todo o filme. Atribuímos um certo poder a formações como esta à ideia de uma nova configuração da sociedade que nos falta hoje – e a ideia de como poderia ter sido o futuro se as coisas tivessem corrido de forma diferente é muito relevante para a situação em que agora estão vivendo. De repente, percebemos que as instituições que deveriam nos proteger e manter a ordem e o progresso não só vão desaparecer como nunca existiram, mas já partiram. E isso é algo que o filme também procura fazer: lamentar por um futuro utópico perdido.”

A Vox Magazine apontou “A Machine to live in” como “um filme que explora os limites de uma utopia imperfeita, um olhar íntimo do impacto desconhecido da capital do Brasil na vida de seus moradores”. Já o site Firstpost definiu o longa como “um retrato visualmente arrebatador de uma cidade que por si mesma parece um monumento religioso.”

O italiano Ma Se Domani, elogiando a obra, comentou que “graças à sua fotografia, consegue encantar admiradores da arquitetura do século XX e curiosos crônicos. A encenação é precisa, refinada, perfeita para o exigente público cinéfilo que povoa os festivais.” Enquanto o Modern Times destacou “o estilo desse espetáculo colorido e sensual […] é gracioso e imponente – incluindo uma tomada aérea de 83 segundos que lentamente apresenta o terminal de ônibus da cidade, um verdadeiro coup de cinéma. Benz trabalhou a paleta de cores para endurecer os azuis, e enferrujar os vermelhos; as nuvens no céu assumem um ar de hiperrealidade.”

“A Machine to live in” já foi exibido no True/False Film Festival (EUA), e Vision du Reel (Suíça), um dos Festivais de documentário mais importantes do mundo. No Brasil, o longa teve sua primeira sessão na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.