O MENDIGO FAQUIR

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Copacabana, Princesinha do Mar há muito já tem seu oceano de camelôs, pedintes, cracudos,  traficantes, moradores de rua, espertalhões, pivetes e assaltantes de calibres vários. Estão postados, prostrados, correndo ou caminhando por calçadas esburacadas. Cabe aos que passam saber se safar para não ser a próxima vítima. O resultado desse caos é uma população ressabiada, mas que ainda conta com um nível morto de esperança.

Abatida por uma virose, dessas genéricas que os médicos reconhecem até pelo telefone,  cruzei a Nossa Senhora de Copacabana com pena de mim. Certifiquei-me de que o sinal estava fechado para os carros e atravessei a rua.

Por conta da minha desconfiança, olhei para os ônibus e carros parados, rangendo  motores ciscando nervosos. No Brasil, motoristas têm raiva de pedestres e de sinal vermelho. Na primeira fila, um inquieto motoqueiro, com pinta de entregador, mexia a direção de sua modesta máquina de um lado para o outro.

Ele disse alguma coisa que  não entendi, por conta do ronco da rua e da minha constipação buco-maxilo-facial Olhei para ele, que perguntou em bom som por que eu estava triste. E acrescentou que assim eu não chegaria a “lugar nenhum”.

– Por que essa cabeça baixa?

Não pude deixar de responder, achando engraçada a critica dele à minha postura física e moral. Sorri e disse:

– Estou gripada – Argumentei, quase me desculpando pela figura molambesca que em mim habitava.

O sinal piscava para abrir para os carros.

– Ah! Então vai pra casa e faz repouso. Descanso, hein, muito descanso – advertiu o motoboy.

Pisei do outro lado da calçada, fazendo um sinal de ok para o rapaz, preocupado com minha saúde. Pensei no clichê: afinal, o mundo não é tão mau assim.

Dias depois, já restabelecida, voltava com minha mãe da missa de sétimo dia de um tio querido. Pedi ao motorista do táxi que nos deixasse o mais próximo da portaria do prédio onde ela mora. Paguei a corrida e com um troco de cinco reais na mão tentava ajudar a mãe a sair do carro.

Assim que ela pisou na calçada, vi um mendigo postado em frente ao prédio. Eu já o conhecia de vista por sua magreza de faquir, pernas incrivelmente finas e pela forma  dramática de pedir esmola.

– Dá um trocadinho. Mas se for uma comidinha melhor ainda. Ou um pão com café.

É de doer o coração o texto dele. Naquela situação, era inevitável nos encararmos. E ele repetiu a cantilena pungente, olhando fixo para a nota de cinco reais que eu, atrapalhada em segurar duas bolsas e a mãe, trazia entre os dedos.

Firme na minha convicção de não incentivar a indigência, fiz um olhar entediado enquanto apoiava minha mãe em seus passos inseguros. Até que ela, ainda abalada com a  missa do irmão perdido há tão pouco tempo, empacou e anunciou:

– Vou cair, vou cair.

Escorei a mãe com meu corpo e com minha cara de pânico. Paramos no meio do caminho. De repente, o mendigo faquir saltou do chão e avançou em direção a nós.

– Deixa que a gente segura ela. Mora onde?

Surpresa com o gesto, apontei com o queixo a portaria, a pouquíssimos passos.

Eu e o mendigo faquir ficamos tão perto, ele de um lado, eu de outro e minha mãe no meio, que vi quando ele, muito mais jovem do que parecia em sua miséria profissional, sorriu desdentada e solidariamente ao ouvir dela que a tontura passara.

– Graças a Deus, vó!  – ele comemorou.

E nós dois levamos minha mãe até a porta gradeada do edifício, para onde já descia o porteiro estranhando a cena. Também surgia a cuidadora, igualmente surpresa. A vendedora da loja de colchões ao lado do prédio correu trazendo uma cadeira.

O mendigo faquir ainda perguntou se eu queria que ele ajudasse minha mãe a subir os degraus até o hall do elevador.  Recusei agradecendo, e ele entregou o braço da mãe ao porteiro. E foi se virando para voltar aos  seus andrajos estendidos no chão e prosseguir na sua cantilena apelativa. Eu o chamei e com uma vergonha inexplicável, lhe passei a nota de cinco reais ainda enfiada entre os dedos. Ele agradeceu sorrindo. Quanto valia a ajuda que ele prestara?

Momentos depois, ainda sem resposta, comentei com a vendedora da loja de colchões do meu assombro com a prontidão do mendigo faquir e de seus cambitos a quem eu, inicialmente e como sempre, negara um auxílio e que me fizera uma caridade. Ela concordou, mas lembrou que já vira um aleijadinho sair correndo da polícia.

Recentemente vi o mendigo descarnado, desta vez na porta do banco, pedindo por um prato de comida ou um pão. Conferi discretamente seus caniços e ainda duvidei que eles pudessem pô-lo de pé, tão imediatamente quanto presenciei. Ele, com  a máscara constrita da fome, parece que não me reconheceu entre tantos passantes. E me ignorou, como eu fingi e finjo ignorá-lo.

Ele vestia uma velha e maltrapilha camisa do Flamengo, meu time. Imaginei o jovem homem que vi de perto vibrando num estádio por um gol, pulando em cima de suas pernas, depois de encerrado o seu expediente nas ruas. Fui andando, movida por uma certo afeição pelo mendigo faquir.  Afeição retirada do meu volume morto de esperança.

FIM

 

 

NA FILA DO AMOR

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 Havia um tempo em que convidar alguém para ir a um motel causava um certo frio na barriga. Aceitar a sugestão, quase dava em um piriri físico e psíquico. Na década de  1970, a maioria dos motéis frequentados pelos jovens modernos da zona sul ficavam  na quase longínqua Barra da Tijuca.

Os templos do amor tinham nomes singelos e românticos, geralmente em inglês. Os letreiros piscantes, como teatros da Broadway, evocavam flores, amor, paixão, mar, serra, balanço, aconchego, coração. Os motéis eram, em regra, um primor de discreção e reserva e os namorados sabiam que podiam levar as namoradas com segurança àqueles antros de transgressão.

O misto de pudor, dúvida e ousadia que os jovens da classe média experimentavam a caminho do motel era disparado por gatilhos filosóficos e fatos de um mundo que caminhava e empurrava para frente novos valores, como: é proibido proibir, amor livre,  queimar sutiãs, faça amor não faça a guerra, a pílula, os hippies, o homem na lua, a ditadura aqui e em países vizinhos, a guerra fria, fora yankees e, por fim, tesão recolhido e hormônios em ebulição, que ninguém é de ferro.

Ir a um motel era uma aventura que exigia alguma engenharia e esperteza. Os pais das garotas não poderiam (ou fingiam) saber o destino da filha, sob pena de um escândalo estourar, apesar dos novos tempos. Era melhor crer que as meninas estavam no cinema, em casa de amigas ou numa festa dançando rock e fazendo o coro de “Andança”.

Mas uma ameaça rondava as jovens mentes e corações. Mesmo àqueles que já tinham  maioridade civil. A qualquer hora do dia ou da noite a polícia poderia fazer  uma blitz  em alguma  daquelas estalagens urbanas em busca de menores.

Era sempre uma fantasia aterradora  o casal sair de um motel fugindo da polícia, abotoando a blusa às pressas, acelerando o carro emprestado pelo pai que era um provecto e pacato senhor aos 50 anos de idade.

Vários dos primeiros motéis da Barra ficavam na Barrinha com seus prédios baixos dando os fundos para o canal, onde hoje, e a toda hora, irrompe um “empreendimento imobiliário”. O canal, à direita de quem sai do Elevado do Joá entrando na Barra, é um dos lugares mais bonitos da cidade, ocupado em parte por casas e decks particulares de onde ziguizagueiam jetskis e lanchas.

Aos sábados à noite de então, na rua dos motéis que terminava  próxima ao Bar do Oswaldo, famoso por suas batidas coloridas, havia filas de espera de casais dentro dos carros, como nos restaurantes hoje. Os funcionários que controlavam o fluxo de entrada e saída de automóveis ignoravam com circunspecção profissional a acompanhante do motorista quando se aproximavam para dar uma posição sobre a vez do cliente.

Hoje, que motel que nada. Os namorados transam na casa dos pais de um deles e de manhã se sentam à mesa da família para dividir o suco, bolo, café com leite, pão e ovo mexido. A possível sogra pergunta se a noite foi boa; o possível sogro empresta o jornal, se é que os ‘milênios’ vão querer ler mídia impressa. Sexo de graça, no próprio colchão, privacidade total, com a bênção dos pais. Sem blitz, sem despesa, sem medo,  sem pecado e com juízo.

A rua do Canal da Barra tinha um appeal, perdido depois que os motéis saíram de moda e viraram apenas o que são: uma conveniência para amantes sem-teto e hóspedes improvisados  e excedentes. Na rua dos motéis passavam desejos, pecadilhos e transgressões em estado puro, antecedendo o furor das vias expressas que hoje levam ao infinito, os shoppings e os condomínios de todos os quilates.

Vem a atriz com seu physique de role requintado e afirma no comercial que no Canal da Barra vai nascer o condomínio mais “exclusivo” do bairro. Que seja. Até que venha o próximo.

Os  atuais e futuros moradores  da rua do canal se não sabem, saberão que ali, muitos casais cariocas  que envelheceram –  os que se separaram e os que viraram uma família tradicional  – se amaram e ousaram, antes ou depois de  sonhar ou dançar nas boates e bares que também tinham uma linda vista para  aquele Canal da Barra.

 

AS SEREIAS DE COPACABANA

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Tem dias que eu gostaria de levantar-me, ir-me embora para minha casa, a algumas quadras daqui. Lavar-me dessa maresia pegajosa e verde. Encontrar minha estante, minhas coisicas, meu elefante de pano e orelhas pensas e retomar minhas manias de velho.

Mas me condenaram a mim, em ferro e imagem, a ficar aqui, eternamente, pernas cruzadas, meio de banda, um livro no regaço, sentado sobre um verso escrito não lembro como, mas lembro o porquê. Sem me perguntarem se tenho ardência nas juntas, se me dói a cervical ou a cabeça. Sou um homem frágil e de bronze. Um homem de costas para o mar. Sozinho na cidade.

E a friagem? Mineiros adoram mar. Mas à noite, bate esse vento nas costas – e eu não tenho pulmões de aço. No inverno, nem a bruma de Itabira me fazia tremer tanto. De vez em quando, um homem do povo vem e me cobre com uma manta imunda de histórias ora assustadoras, ora de ninar e dorme encolhido ao meu lado. Diz coisas desconexas, às vezes. Estaria bêbado de vida, entre a espuma de uma onda e outra?
O mar de Copacabana quebra versos dispersos na areia e não me deixa adormecer de todo. Versos meus, versos que jamais escrevi, cantos, quem sabe, de sereias. Mas não posso rodar sobre o meu eixo, se é que tive algum, para ver se são elas mesmo.

Há no ar um canto quase enlouquecedor, que me faz lembrar o tormento de Ulisses com essas criaturas raras. Não tenho mastro em que me agarrar. Estou solto e plantado neste banco. Quero ir e caminhar entre os automóveis, olhar de outro ângulo coisas e gentes, olhar a praia. Como temi esse tempo: ser condenado ao eterno. Por culpa de meus versos quebrados fiquei moderno.

E me espantam quantos flashes me cegam momentaneamente, mais que o sol, e revelam as provas de carinho que recebo ao ser mais um em tantas fotografias. Fazem fila de chamar a atenção, sentam-se em meu colo, me beijam, me babam, me olham com frieza, como convém a um desconhecido numa cidade grande. Fitam-me com amor e desconfiança, como se eu fosse retribuir suas gentilezas e espantos com versos escandidos.

Muitos só me viram no folheto de viagem. Alguns se emocionam de verdade. Reverenciam-me. Eu também choro com minha cara de estátua e retinas plúmbeas. Essa cidade-soneto também gosta de versos brancos, de rima, de prosa.

Saibam poetas, confrades, que crianças declamam diante de mim algumas de minhas estrofes. De cor. Fico envergonhado, sempre fiquei. Creditam sua prematura tagarelice literária aos pais, professores e à sua curiosidade de saber que alma habitaria essa estátua sentada. Aposto nesta.
Nem gosto tanto de meus versos. Mas são minha cachaça. Sinto pudor em estar exposto assim. Mas agora é tarde para desescrever.

Por esta calçada passam, acredite, bois solitários, moças bonitas, meninas e velhos, como eu. A uma paradinha se me olham, tento retribuir, dizer palavra, como raramente eu fazia àqueles que me encontravam na Avenida Rio Branco, atravessando o sinal apressada e propositalmente, calçada à calçada, como se estivesse me salvando.

Mas os que passam não percebem sentimento algum, porque meu rosto é máscara. Não veem que estou sorrindo, que hoje, tardiamente, sou mais tolerante com este vasto mundo.

Há vantagens em estar aqui. Pelo menos, não definharei mais do que já conseguira o tempo. Em lugar da pele flácida, da boca melancólica em forma de lua minguante e olhos opacos está um corpo sem cicatriz. Muito raramente, uma pasta rosa me dá um lustro e me tira o limo encruado nas dobras da camisa, nas rugas das mãos, como brotoejas em um pequeno infante.

Aqui, imóvel, vejo os dias fluindo, fogos espoucarem no fim dos anos e uma multidão deslumbrada enviar ao céu toneladas de desejos que se morrem no mar. O último dia do ano não é o último dia do tempo, balbucio. Mas isso não sensibiliza os mais crédulos.

E na impossibilidade de pular sete ondas e fazer um pedido à rainha das águas, eu, homem incrédulo, fiz uma promessa ao mar, esse mesmo sobre o qual a cidade estava escrita. Mas nada posso contar, que quereres se guardam como segredos.

Outro ano começa e as chuvas de verão castigam o que chamam de mim. Sabiam que tenho rinite? Não que eu despreze diariamente a idéia de me botarem aqui no banco de costas para o mar. Se pelo menos pudesse olhar os navios, o infinito e as cores da aurora. No entanto, perscruto-os.
Sei de amigos, estes sim talentosíssimos, na mesma situação que eu em outros cantos da cidade. Sem maresia nem derivativos. Mas ninguém, plantado talvez em um lugar tão privilegiado a despeito de meus queixumes. Sou o homem sentado na calçada mais bonita do mundo. E nem aqui nasci. Sabia de antigas fazendas e de pétreas montanhas. Reconheço a honra que me dão. Poderia esta cidade amar o perdido mais que isso?

(Algo eu posso dizer.) Meu segredo vem, sim, do mar. E me foi sussurrado pelas sereias. Lembro Bandeira nos versos de ‘O Rei e suas filhas’. Mesmo sem poder virar-me, sei que elas chegam ali por trás das pedras do Marimbás e me chamam com seus cânticos dóceis, regidos pelo sopro da noite. E sussurram: temos um plano, um plano, um plano. De costas, demonstro minha esperança como forma de aquiescer. E elas se vão barulhentas.

Preciso discernir se sonho, se as ouço de verdade, ou se está nascendo em mim apenas um poema. Nessa orgia onírica a que me entrego em entressonos, elas vêm se juntar aos elementais urbanos que falam comigo, estes a quem nada tenho a oferecer além de um ombro gelado e de um olhar fixo, mas, creiam, de inabalável solidariedade às suas naturezas sem forma.
Licença, vossa família evém chegando.

O sol nascia no Leme e uma pequena multidão cercava o banco do poeta. Polícia, peritos, repórteres, aposentados mal despertos, prostitutas em sua náusea matinal, todos falando em seus telefones que filmam.

Um rapaz que corria no calçadão pouco antes do amanhecer repetia ter visto o poeta de bronze levantar-se, dar meia-volta, contemplar o infinito e após espreguiçar-se, como se alongasse os sentimentos, caminhar até a beira do mar. Na linha da espuma teria sumido junto a mulheres mal delineadas pela luz difusa da madrugada.

Ansiosas e rápidas, ininteligíveis, envolveram o seu corpo entre os seios, a cabeleira e um furta-cor de escamas e submergiram, todos, no azul-marinho das ondas para além da arrebentação.
No banco de pedra do Posto Seis, a marca úmida da ausência do poeta libertado por criaturas que – juram alguns – aparecem no mar de Copacabana.
A polícia não acredita em sereias. E, parece, não saberá decifrar tão claro enigma.

Foto: Pinterest

A BILHETEIRA DO JOIA

Hooper Cinema Moça

Um dia de semana qualquer, à tarde. Assistir a um filme no Cine Joia, a tradicional microssala de projeção de Copacabana, é como entrar em outro filme. A primeira sensação é de fazer parte de uma tribo heterogênea, de intelectuais em busca da fita perdida, aposentadas com ar de que não sabem o que vão ver, jovens cinéfilos solitários que parecem estar na antessala da obra essencial e frequentadores raros, como eu. Essa mistura faz você sentir-se prestes a carimbar  a vesperal  como uma inesquecível experiência artística.

Na verdade, eu estava  ali  aproveitando para cumprir uma promessa feita a mim mesma de passar a frequentar mais o Joia. Não lembrava a última vez em que lá estivera, muito antes de o cinema, criado em 1969, fechar em 2005. Até sua reabertura, seis anos depois, Copacabana virou um subúrbio à beira-mar e a galeria do Joia, onde jorrava uma cascata barulhenta e com cheiro de cloro, deu adeus às lojinhas interessantes que abrigava.

O Joia renasceu em sua simplicidade, sem vergonha de ser analógico num mundo dolby com trocentas caixas de som. O preço do bilhete é franciscano e se for meia-entrada, é franciscano e meio. Com tamanha economia, vem logo à mente um combo pipoca/coca-cola a preço módico. Aí descobre-se que a bilheteira do cinema é a mesma que opera a pequena máquina de pipoca e de refrigerantes. Ou a que se contorce para pegar o drops ou similar, já que drops não existem mais.

E se desespera moderadamente para se virar em trocos. A moça, moderninha desde o corte de cabelo até as tatuagens que exibe, pede calma à fila pequena que toma forma, como qualquer bilheteira pediria, se tivesse que vender ingressos e passar trocos, escolher as guloseimas pedidas e dar informações pelo pela fresta do vidro.

O Joia só exibe filmes ditos de arte. Um a cada sessão. Portanto, não adianta olhar para a cara dos que estão saindo da sala à procura de impressões. Finda a fila,  a bilheteira pergunta se mais alguém vai assistir àquela sessão e fecha seu balcão para sumir atrás da cortina que, rap, rap, ela fecha com intimidade. Não há sala de espera e do lado de fora da galeria, os quase 20 espectadores  não disputam um dos 87 lugares.

A bilheteira surge e, rap, rap, abre a cortina. A tela é pequena, quase do tamanho de uma  super TV de led que a gente vê nos shoppings. Penso que vai ser uma experiência nostálgica, como  era curtir um cineminha na casa de alguém. À meia luz, percebo que dois pequenos banheiros, masculino e feminino, estão no fundo do espaço retangular.

A bilheitera entra e, rap, rap, rap, fechas as cortinas. Rapidamente faz uma checagem nos banheiros. E a moça tatuada, de saia longa e coturnos, some atrás da tela para reaparecer. Aciona um interruptor e a luz se apaga. O espetáculo vai começar. Sem gongos. Não sei ao certo qual filme verei, porque acabei no Joia atendendo a uma amiga que queria companhia e que na última hora acabou atropelada por um cliente extra.

Mas com a certeza de que o filme era bom, se não não estaria no Joia, parei  de bisbilhotar o trabalho da multitarefeira. não sem antes pensar na mais-valia ou na praticidade atual de fazer um cinema funcionar com  mão de obra única. Com a firmeza de que não colocou o filme errado no cinematógrafo, a bilheteira,  rap, rap, fecha a cortina e volta ao seu posto.

Não lembro o título do filme e será difícil resgatar-lhe o nome. Mas lembro da boa história e do bom desempenho dos atores alemães embrenhados em Nova York atrás de uma cantora de ópera. No final da sessão, a bilheteira irrompe a sala, rap, rap, abrindo as cortinas, acendendo a luz e voltando para o pequeno balcão dando tratos à fila da sessão seguinte. Depois, ela vai inspecionar os banheiros, trocar o filme do projetor, apagar a luz e rap, rap na cortina.

Da memória recente, de quem foi ao cinema e acidentalmente assistiu a um bom filme, sobe um cheiro irresistível de pipoca e reverbera o barulho de celofane amassado, talvez um papel de bala.

Foto: tela de Edward Hopper

FOLHA GRANDE, FOLHA PEQUENA

When I m 64 aquarela

Não sou Anitta (nem queria ser), Neymar (talvez quisesse), Gisele (quem dera) nem Bonnie Tyler, a intérprete de Total Eclipse of the Heart (confesso que desconhecia a cantora), a  mais nova recordista planetária da internet por causa do eclipse do sol na última terça-feira. Mas quebrei a rede semana passada, ao escrever sobre a simplíssima festa de  91 anos de minha mãe. É bom explicar que esse meu “arrombar a festa” na internet refere-se ao meu humilde padrão. Creio que nunca antes passei de uma centena de likes. Muito menos superei a casa dos quarenta comentários. Dessa vez, sim.

Esse meu discreto fã-clube digital deve-se, talvez, à minha discreta fome de fazer amigos na rede. Quase sempre, quando aceito gente  sem referência de outros amigos,e que não conheçi pessoalmente por achar que esses forasteiros podem me admirar por algum ângulo ou ter algum ângulo admirável, descubro que não têm nada a ver comigo.

São esquerdopatas, mais parecidos com  raivosos robôs partidários, ou direitistas desesperados pedindo a volta dos militares. Ou, ainda, gente desinteressante, que passa a mandar posts com laços de fitas e bichinhos desejando bom dia, boa tarde, bom semana, bom mês, bom ano. Ou convidando para jogos e correntes. Nunca respondo, e os algorítimos vão-se encarregando de esquecê-los e  fazê-los com que se esqueçam de mim.

Mas semana passada muita, muita gente apareceu na minha linha do tempo para se manifestar por Dona Lourdinha e por mim. Obrigada a todos. Afinal, todos têm mãe, tiveram e terão. Cada um com sua história. É uma sorte e uma felicidade ainda tê-la comigo. Meu tios Edson e Belinha não foram. Ele não estava se sentindo muito bem.

Mas a  festa foi um sucesso para o que poderia ser. Hoje foi dia de troca de presentes. Roupas apertadas ou roupas folgadas. Roupas frescas demais ou quentes demais No shopping, uma trabalheira. Para mim, que não tenho experiência em sair com o ‘carrinho’, a cadeira de rodas de minha mãe para longas caminhadas, não é fácil.

Mas para Márcia, a fiel escudeira, nada é problema. Ela mostra ao motorista do táxi como desmontar a cadeira para que caiba em qualquer mala de carro tirando-lhe as rodinhas com uma simples pressão dos dedos. Eu, plá, fico pasma com a facilidade que ela tem de não criar dificuldades e de se esgueirar em qualquer corredor de lojas cheias de cabides e elevadores, dirigindo o carrinho com minha mãe a bordo.

Não quis, não pude e não vou escrever palavras muito sentimentais sobre os anos de minha mãe por pura incompetência e temor de mergulhar nesse mundo, num mundo futuro, distante ou próximo, sei lá, sem mãe. Mesmo que ela não cuide mais de mim ou de meus irmãos, ela está lá, na casa dela, dia após dia, esperando sempre por nossa visita. E vida que seguirá assim até quando der. Um dia de cada vez.

Hoje não acordei muito bem. Tive um pesadelo que me deu a sensação de ter durado a noite inteira. E, ao contrário dos sonhos bons, aqueles que a gente não quer que acabem, acordava. E quando voltava a dormir, o pesadelo seguia de onde tinha parado, como uma novela bem amarrada, em capítulos. Os sonhos que mais me agoniam são aqueles em que me vejo sem conseguir retornar para o lugar confortável e seguro e que deixei com a intenção de ir ali e voltar já.

Eu não sei se sonhar com o rei dá leão, mas interpretar meus sonhos é uma habilidade que desenvolvi, tão claros e bandeirosos que são. Pior, é não saber como consertar o que o inconsciente aponta.

O único remédio para quando tenho pesadelos que me fazem mal por todo o dia seguinte é fingir que o dia não houve e inaugurar outro dia. Da festa de 91 anos de minha mãe trouxe uma boa ideia, caso algum sonho mal venha a me azucrinar esta noite, a de copiar Stella, minha sobrinha neta, prestes a fazer dois anos.

Ela tem tanta energia que parece possuir um motor de popa na popinha. Minha sobrinha, a mãe Stella, contou que no play ela corre, corre, corre. Cansada, joga-se na grama do jardim e põe-se a fitar uma árvore cantando alto: “folha grande, folha pequena, folha grande, folha pequena”. Para não ter pesadelo, é assim que vou dormir hoje. Imaginando-me sob uma árvore, olhando o teto.

Acabo de saber por minha mãe ao telefone que Tio Edson, aquele irmão caçula dela (que não foi à festa porque não estava se sentindo bem) faleceu dormindo esta noite. Na noite do meu pesadelo. Ele era o meu último tio, o predileto. Folha grande, folha pequena.

Ilustração: Pinterest